A ONU publicou este mês um relatório demonstrando que os aumentos anuais previstos para as emissões de CO2 podem ser neutralizados com o armazenamento de carbono no solo. No documento, estima-se que seria necessário o acréscimo de 1,5 tonelada de CO2 por hectare em 2 bilhões de hectares de solos degradados pela agricultura intensiva. Hoje, cinco bilhões de hectares são usados em todo o mundo para a produção agrícola. O ISRIC (Centro Internacional de Referência e Informação sobre Solos) em colaboração com a ONU, produziu uma base de dados dos solos do mundo, que resultou no mapa abaixo. As áreas em vermelho indicam solos altamente degradados.
Surpreendentemente, o solo armazena quantidade de CO2 equivalente a três vezes aquela presente na biomassa terrestre –animais e plantas- e duas vezes a da atmosfera. Entre as diferentes maneiras de se aumentar a deposição desse elemento no solo, as mais simples estão relacionadas a manejos agrícolas sustentáveis. Um deles é o plantio direto. Estudos de solos brasileiros verificaram aumentos entre 0,4 e 1,7 toneladas de CO2 por hectare em terras sob este tipo de manejo, que elimina o uso do arado.Símbolo da agricultura moderna, a prática de lavrar o solo libera rapidamente para o ar o carbono antes armazenado sob a forma de matéria orgânica. De modo oposto, nas agriculturas consideradas sustentáveis, entre elas a orgânica e a permacultura, e nas técnicas de adubação verde e plantio direto, essa prática é eliminada. Assim, é possível conservar, e até aumentar, a matéria orgânica, que contém em média 57% de carbono.
Uma pecuária mais sustentável é outra forma de diminuir o CO2 atmosférico, o que é particularmente relevante no caso do Brasil, que possui hoje o maior rebanho bovino do mundo. A atividade ocupa por aqui área que corresponde a quase 2,5 vezes as de lavouras. Um grande desperdício de terras, na verdade. As criações mais extensivas, sistema dominante no país, tem produtividade baixíssima, entre 1 e 1,5 cabeça de gado por hectare. Com a adoção do pastejo rotacionado, é possível produzir até 4,5 cabeças na mesma área. Para isso, a pastagem é dividida, fazendo-se um rodízio em que apenas uma parcela é ocupada por vez. Evita-se dessa forma o sobrepastejo, ou seja, consumo do capim muito rente ao chão, o que prejudica a rebrota e a velocidade de crescimento. Além disso, maiores quantidades de esterco são produzidas por área. A incorporação desse material ao solo aumenta de uma só vez a matéria orgânica do mesmo, a produtividade do sistema, e o armazenamento de carbono. E se tudo isso parecer pouco, evita a derrubada de florestas ao liberar área para a agricultura.
O aumento da fertilidade natural dos solos parece ainda mais atraente em um momento em que o preço dos fertilizantes dispara. De acordo com o IBGE, os aumentos foram de 41% nos últimos 12 meses e 300% desde 2000. O ministro da agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou recentemente que os fertilizantes são um item estratégico, “uma vez que o Brasil é altamente dependente da importação de fertilizantes”. Sábias palavras. Esses insumos correspondem a 40% dos custos da agricultura e, do total consumido no país, 70% são importados. Os nutrientes mais utilizados são o trio N-P-K (sic) – nitrogênio, fósforo e potássio-, presentes na maioria das formulações comerciais. É possível aumentar no país, através da mineração, a produção dos dois últimos. No caso dos adubos nitrogenados, como a uréia, que são os fertilizantes mais consumidos, a produção fica limitada à disponibilidade do disputado gás natural, matéria prima fundamental para sua produção.
Mas seria a matéria orgânica capaz de fornecer até mesmo o nitrogênio de que as plantas tanto precisam para crescer? Sim, direta e indiretamente. Além de conter o elemento em sua composição, ela propicia as condições necessárias para o desenvolvimento das bactérias que permitem aos vegetais utilizar o nitrogênio presente no ar.
A agricultura dependente de caros insumos externos pode dar lugar a uma agricultura mais sofisticada, baseada em uso extensivo de biotecnologia - que não se limita aos controversos transgênicos, muito pelo contrário. “Temos de mudar de um modelo de produção que nos trouxe até aqui para um modelo ambientalmente sustentável, que utilize menos água e menos fertilizante, com mais cérebro do que força”. A afirmação é do engenheiro agrícola e professor da Unicamp, Luís Augusto Cortez, publicada na “Revista FAPESP”, (Revista da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de São Paulo), em matéria sobre um novo fertilizante biológico, que substitui o uso de adubos nitrogenados na cana-de-açúcar. Cinco espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio são a base do novo produto, desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Agrobiologia. Com o seu uso, espera-se a reduzir em em 50 mil toneladas o consumo de adubos nitrogenados no plantio da cana.
Existe hoje a oportunidade de financiar a transição de pelo menos parte da nossa agricultura para um modelo sustentável através dos MDLs (mecanismo de desenvolvimento limpo) previstos no protocolo de Kyoto. Através deles, países desenvolvidos investem em projetos ambientais em países emergentes ou subdesenvolvidos em troca de créditos de carbono para neutralizar suas emissões. Será que uma agricultura mais eficiente energeticamente, capaz de produzir alimentos mais saudáveis e que, de quebra, diminui os níveis de gás carbônico na atmosfera, não merece ser considerada como opção? Enquanto isso, em Brasília, sai um pacote para financiar a compra de 60 mil tratores. E lá se vão mais algumas milhares de toneladas de carbono para a atmosfera.






